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Uso indiscriminado de medicamentos veterinários: um risco à Saúde Única

O desenvolvimento de medicamentos veterinários ao longo das últimas décadas transformou profundamente a Medicina Veterinária, trazendo ganhos expressivos para a saúde e o bem-estar animal

O desenvolvimento de medicamentos veterinários ao longo das últimas décadas transformou profundamente a Medicina Veterinária, trazendo ganhos expressivos para a saúde e o bem-estar animal. Impulsionados inicialmente pela pesquisa acadêmica e posteriormente incorporados pela indústria farmacêutica e pelas autoridades regulatórias, os novos fármacos se tornaram cada vez mais específicos, seguros e adaptados às diferentes espécies, tanto de companhia quanto de produção. Nesse contexto, destaca-se a relevância das pesquisas conduzidas em condições de clima, manejo e sistemas produtivos característicos de nosso país, que permitem compreender particularidades fisiológicas, metabólicas e zootécnicas das espécies aqui criadas. Esses estudos possibilitam a adequação dos regimes terapêuticos às realidades nacionais, garantindo maior eficácia e segurança tanto no controle de enfermidades que comprometem a produtividade dos rebanhos quanto naquelas que afetam a qualidade de vida dos animais de companhia. Dessa forma, os avanços no desenvolvimento de medicamentos veterinários resultaram em melhorias concretas na saúde e no bem-estar animal, ampliando a eficácia terapêutica e a qualidade de vida. Esses progressos refletem também diretamente na saúde humana e ambiental, evidenciando o papel essencial da Medicina Veterinária na promoção da Saúde Única.

Por outro lado, ainda que os avanços farmacológicos representem conquistas inegáveis para a prática veterinária, o uso abusivo e não racional de medicamentos surge como um dos principais desafios contemporâneos da interface entre saúde animal e saúde pública. Neste sentido, por exemplo, vários estudos demonstram que a utilização de antimicrobianos fora de protocolos baseados em diagnóstico laboratorial ou em esquemas terapêuticos não validados intensifica a pressão seletiva sobre as colônias bacterianas, favorecendo a emergência de fenótipos multirresistentes.

Na clínica de pequenos animais, a principal preocupação recai sobre o uso recorrente de antimicrobianos classificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como de importância crítica para a medicina humana, como fluoroquinolonas e cefalosporinas de 3ª e 4ª gerações, prática que favorece a seleção de cepas resistentes em espécies de companhia. Devido à convivência próxima com as pessoas, esses animais podem atuar como reservatórios e amplificadores de patógenos multirresistentes, incluindo Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae e Staphylococcus pseudintermedius, cuja transmissão cruzada para humanos já foi amplamente documentada.

Nos animais de produção, a situação é particularmente crítica. Evidências consistentes demonstram que o uso indiscriminado de antimicrobianos em larga escala, seja como melhoradores de desempenho ou em esquemas profiláticos, tem desempenhado papel decisivo na emergência e disseminação de resistência antimicrobiana em microrganismos entéricos, como Escherichia coli, Salmonella spp. e Campylobacter spp. Além disso, a ausência de diagnóstico preciso e o manejo incorreto de doses (como subdoses) intensificam a pressão seletiva sobre as populações bacterianas, favorecendo a persistência e a expansão de cepas multirresistentes. Uma vez selecionados no ambiente de criação, esses patógenos não permanecem confinados ao plantel, podem se disseminar amplamente por meio da contaminação do solo, da água e dos dejetos, além de ingressar diretamente na cadeia alimentar, com consequências diretas para a eficácia terapêutica na medicina humana. Dessa forma, estabelecem uma ligação entre práticas produtivas e riscos à saúde pública, configurando um dos principais desafios da Saúde Única.

Ainda, deve-se considerar que o não cumprimento dos períodos de carência, aliado ao uso de forma diferente do que consta em bula, e o emprego de medicamentos clandestinos, não registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária, pode expor consumidores a resíduos dos vários medicamentos empregados na produção animal, com possíveis sérios efeitos à saúde da população. Para citar exemplos, no caso dos β-agonistas, quando empregados em excesso, os efeitos adversos decorrem de sua própria ação farmacológica exacerbada, podendo resultar em taquicardia, hipertensão, tremores e distúrbios metabólicos. Já substâncias como os nitroimidazóis apresentam evidências consistentes de genotoxicidade e/ou carcinogenicidade, de modo que não há nível seguro de exposição; por essa razão, seu uso em animais destinados à produção de alimentos foi proibido em diversos países, incluindo o Brasil. 

Esses exemplos ressaltam que, embora diferentes classes de medicamentos compartilhem a preocupação quanto à presença de resíduos em alimentos, a natureza e a gravidade dos riscos associados variam substancialmente entre elas, indo desde efeitos farmacológicos exacerbados até evidências consistentes de genotoxicidade e/ou carcinogenicidade. Além dos efeitos imediatos, há crescente preocupação com a exposição crônica, que pode resultar em disbiose intestinal, fenótipos alérgicos e intensificação da resistência antimicrobiana, retroalimentando um ciclo de difícil contenção. Tais evidências reforçam a necessidade de compreender o tema sob a ótica da Saúde Única, em que saúde animal, humana e ambiental são indissociáveis. Nesse contexto, organismos internacionais como o Joint FAO/WHO Expert Committee on Food Additives (JECFA) desempenham papel central ao estabelecer parâmetros de segurança, avaliando toxicidade e definindo Limites Máximos de Resíduos (LMRs). Esses referenciais científicos, adotados pelo Codex Alimentarius e por agências regulatórias nacionais, constituem a base para assegurar que alimentos de origem animal sejam disponibilizados para o consumo de forma segura, ao mesmo tempo em que orientam políticas para o uso racional e monitorado dos fármacos veterinários.

Assim, embora a presença de resíduos seja um desafio real e contínuo, a atuação regulatória e científica coordenada representa um pilar essencial para a proteção da saúde pública. Nesse cenário, torna-se evidente que o médico-veterinário ocupa posição central, pois sua atuação é determinante não apenas para a saúde e o bem-estar animal, mas também para a segurança dos alimentos para a população, a prevenção de zoonoses e a proteção do meio ambiente. Trata-se, portanto, de uma profissão cuja relevância transcende o âmbito clínico e produtivo, alcançando diretamente a saúde pública e a sustentabilidade dos sistemas alimentares. Por isso, a formação do médico-veterinário adquire caráter sine qua non para a proteção da tríade saúde animal–humana–ambiental, exigindo sólida base prática, científica e ética.

À luz desse entendimento, causa preocupação o fato de a recente regulamentação educacional, o Decreto nº 12.456/2025 e a Portaria MEC nº 378/2025, não ter incluído a Medicina Veterinária entre os cursos que não podem ser ofertados na modalidade a distância (EaD). Tal omissão revela um paradoxo: se a Medicina Veterinária, responsável direta pela saúde animal, pela inocuidade dos alimentos e pelo enfrentamento das zoonoses, não for reconhecida como essencial à Saúde Única, que outra profissão o será? Essa lacuna regulatória evidencia a necessidade urgente de valorizar e proteger a formação presencial do médico-veterinário, assegurando a qualidade de sua preparação e, por consequência, a saúde de toda a sociedade.

Silvana Lima Górniak

CRMV-SP nº 114212 Médica-Veterinária. Com especialização em Patologia Experimental, pela USP e Especialização em Toxicologia Animal, pela PUC/RS e ABEAS/MEC. Mestrado e Doutorado no Programa de pós-graduação em Patologia Experimental e Comparada da FMVZ/USP. É Professora Titular, do Departamento de Patologia, da FMVZ/USP. Atua nas áreas de Farmacologia e Toxicologia Veterinária.
silvanagorniak

Silvana Lima Górniak

CRMV-SP nº 114212

Médica-Veterinária
CRMV-SP nº 114212 Médica-Veterinária. Com especialização em Patologia Experimental, pela USP e Especialização em Toxicologia Animal, pela PUC/RS e ABEAS/MEC. Mestrado e Doutorado no Programa de pós-graduação em Patologia Experimental e Comparada da FMVZ/USP. É Professora Titular, do Departamento de Patologia, da FMVZ/USP. Atua nas áreas de Farmacologia e Toxicologia Veterinária.

CV Lattes

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