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Saúde Mental na Medicina Veterinária e na Zootecnia: o desafio de ser um indivíduo equilibrado em um coletivo confuso

O desafio de ser um indivíduo equilibrado em um coletivo confuso

Os mercados da Medicina Veterinária e da Zootecnia passam por uma situação jamais vivida de progressão geométrica no contingente profissional, advindo de um sistema educacional com excesso de oferta de novas vagas de graduação anualmente, levando ao aumento da oferta de profissionais e culminando na degradação profissional. 

Já não é novidade que os médicos-veterinários e zootecnistas são expostos a fatores desafiantes que podem impactar sua saúde mental, haja visto o aumento nos relatos de síndrome de burnout e fadiga por compaixão. Comorbidades preexistentes, como depressão, aliados ao uso de álcool e outras substâncias, bem como o acesso a métodos potencialmente perigosos, são agravantes que não podem ser subestimados nesse cenário.

 Apesar da maioria dos relatos partir dos clínicos de pequenos animais, pela frequência com que lidam com as longas horas de trabalho, óbito do paciente, questionamentos perante a eutanásia, é importante observar que profissionais de outras áreas de atuação também apresentam queixas e quadros relacionados à saúde mental. Os horários e temperaturas peculiares aos frigoríficos, aliados às pressões da atuação de natureza fiscalizatória, assim como as decisões relacionadas a impactos econômicos e sanitários ou os longos deslocamentos enfrentados pelos clínicos que atuam com grandes animais, são exemplos de como todas as áreas de atuação apresentam desafios. 

 Se os dados sobre a saúde mental dos médicos-veterinários ainda são pouco conhecidos, entre os zootecnistas a questão é uma incógnita ainda maior. No entanto, percebe-se entre os estudantes uma cultura de dificuldade de expressão de emoções aliadas a hábitos que envolvem o uso excessivo de álcool, semelhante ao que já se nota entre estudantes de Medicina Veterinária. 

 Mas… se já não basta a repetição dos fatores de risco associados ao exercício profissional, também não há redenção na cobrança pelo autocuidado, responsabilizado o profissional que se divide entre as intempéries do mercado e as responsabilidades da vida adulta. A pergunta que fica é: como equilibrar os fatores individuais perante as interferências do mercado de trabalho e das relações profissionais e, até mesmo, familiares?

 Cada um de nós é uma composição de fatores de origem, de criação, de modificação e de decisão. E é nas possibilidades das interações de nossas vidas subjetivas e de nossas vidas sociais que nos entendemos como pessoas, ao transitar como indivíduo pelo coletivo, modificando e sendo modificado, em mútua construção. As questões de saúde mental obedecem a esse mesmo padrão: navegam pelo indivíduo e pela coletividade.

Enquanto indivíduos, somos responsáveis por cuidar de nosso corpo, nossa mente e nossas emoções – com a mesma dedicação e zelo que recomendamos aos nossos pacientes. Mas nem sempre conseguimos manter uma boa rotina de alimentação, exercícios e sono no ambiente em que vivemos. Às vezes não conseguimos cuidar dos nossos 5 domínios de bem-estar. E esse fato parece nos sobrecarregar ainda mais. Mas precisamos lembrar que somos o resultado da nossa interação com o ambiente. Para podermos ter essas condições adequadas de vida, compartilhamos a responsabilidade com a sociedade. Para conseguirmos cumprir com o autocuidado precisamos também de políticas públicas, políticas afirmativas, espaço para discutir questões de gênero, reconhecimento e valorização da nossa participação profissional e pessoal no mundo.

É necessário um espaço para iniciar essa reflexão sobre nosso lugar no mundo e o lugar do mundo em nós. Precisamos tanto da valorização profissional quanto do reconhecimento da importância dos nossos ofícios para a sociedade, cuidando de sua saúde e da economia. É preciso que se estabeleçam parâmetros de qualidade de trabalho, que servem não apenas para prover o melhor serviço à sociedade, mas também para nos balizar como indivíduos quanto à qualidade de nossa entrega.

Quem nos diz se somos bons profissionais? Quem nos diz se lidamos bem com nossos desafios? O cliente, que nem sempre recebe o resultado que deseja? Nossa autocobrança – normalmente mais dura que qualquer expectativa externa? Precisamos construir juntos esse lugar de validação e reconhecimento. Essa é a força do coletivo: a construção de um mosaico no qual se possa ver a contribuição de cada elemento em uma grande figura.

Talvez venha daí o meu encanto pelo painel que nos recepciona no CFMV: um mosaico com vários trechos de história, narrando nossas profissões em uma construção conjunta de individualidades. Cada pecinha tem sua peculiaridade, mas, juntas, estampam o valor da união de singularidades.  

Saúde mental, especialmente no âmbito laboral, é um tema amplo e intrincado, impossível de se esgotar em poucas palavras, pois questões complexas não têm soluções simples. Há muito a se construir, mas a principal estratégia vem, novamente, da imagem do mosaico: construir o coletivo, cuidar das pessoas. 

Sejamos o coletivo que queremos e precisamos. Sejamos rede de apoio e crescimento uns dos outros. Tenhamos responsabilidade social. Busquemos nos cercar de pessoas que melhoram o mundo e busquemos melhorar o mundo dos outros também. Sejamos coletividade.

Mas sejamos também indivíduos. Olhemos para nós com a mesma empatia e cuidado que olhamos para o próximo. Dediquemos a nós os cuidados necessários e nos perdoemos quando pularmos uma refeição ou a academia. Mas busquemos fazer melhor na próxima oportunidade. Busquemos ambientes melhores, em que somos aceitos em nossa singularidade – mesmo que demande tempo e planejamento para alcançar. 

Quero deixar uma reflexão sobre o autocuidado. Um médico, irmão de um colega veterinário, participava do programa “Médicos Sem Fronteiras” e se viu no meio de um bombardeio inesperado, durante a missão. Após retornar ao Brasil, perguntaram a ele como alguém pode se manter mental e emocionalmente estável, como saber o que fazer para sobreviver a uma situação dessas. Sua resposta foi simples e profunda, como sempre é a sabedoria: “Cuide de você como se estivesse cuidando de alguém sob sua responsabilidade”.  E eu tenho a ousadia de complementar, lembrando que a coletividade que construímos é também construir o nosso destino e cuidar do nosso futuro.

Somos médicos-veterinários e zootecnistas. Nós sabemos cuidar. Cuidemo-nos!

 

ingrid atayde, ética

Ingrid Atayde

CRMV-DF nº 6354
Médica-Veterinária. Mestrado e doutorado em Ciência Animal pela Universidade Federal de Goiás, especialização em EaD pela UnB. Atuação em metodologias inovadoras de Ensino e Aprendizagem e chefe do Setor de Comissões do CFMV.
indrid atayde

Ingrid Bueno Atayde 

CRMV-DF nº 6354

Médica-Veterinária
Mestrado e doutorado em Ciência Animal pela Universidade Federal de Goiás, especialização em EaD pela UnB. Atuação em metodologias inovadoras de Ensino e Aprendizagem e chefe do Setor de Comissões do CFMV.

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