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Por Leo Barsan

O Brasil vive uma inflexão na formação de médicos-veterinários. Em uma década marcada por abertura veloz de cursos, heterogeneidade de infraestrutura e fragilidades práticas, o CFMV levou à 3ª Câmara Nacional de Presidentes (CNP), no Rio de Janeiro, um diagnóstico que chama o problema pelo nome — e apresenta uma rota de correção de curso. São 580 graduações presenciais autorizadas e 87.417 vagas anuais (jan/2025), um salto que veio sem o mesmo vigor em qualidade, supervisão e integração com as DCNs. A mensagem central: tratar a Medicina Veterinária como curso de saúde, com treinamento em serviço e presencialidade real, é condição de segurança para pessoas, animais, alimentos e ambiente.

“Formação frágil não é só um problema acadêmico. É risco sistêmico: para a saúde pública, para a economia e para o meio ambiente. Cada atendimento clínico, cada inspeção de alimentos e cada laudo técnico dependem de competências práticas que não se constroem apenas na tela”, afirma Maria Clorinda Fioravanti. 

Mapa da expansão: muitos cursos, qualidade desigual

O crescimento pulverizado — com cidades que concentram quatro ou mais cursos e estados com oferta acima da capacidade local — criou um mosaico difícil de regular e acompanhar. A Comissão Nacional de Ensino em Medicina Veterinária (CNEMV) destaca que a ausência de um planejamento demográfico e de dados integrados sobre a real demanda do País por médicos-veterinários empurra o sistema para desequilíbrios: excesso de egressos em algumas regiões e carência de formação prática e de serviços-escola em outras. O reflexo começa a ser percebido nos Processos Éticos-Profissionais (PEPs), que, segundo o estudo, cresceram de modo expressivo nos últimos anos — um sinal de alerta sobre lacunas formativas e supervisão. 

EaD e semipresencial: quando a pressa atropela a prática

A autorização do primeiro curso 100% EaD em 2017 marcou uma virada. Para a CNEMV, a modalidade é incompatível com a essência clínica e sanitária do curso. O material apresentado é taxativo: “A Medicina Veterinária é um curso da área da saúde. Só nos serve a presencialidade”, ressalta Maria Clorinda Fioravanti, presidente da Comissão Nacional de Educação em Medicina Veterinária do CFMV. 

O diagnóstico associa o avanço do EaD/noturno à perda de densidade prática (hospitais-escola, campos de produção, laboratórios) e à fragilização do treinamento em serviço exigido pelas novas DCNs. Por isso, o pacote proposto inclui proibição de EaD e cursos noturnos, fechamento de cursos sem qualidade e adoção de mecanismos positivos de indução — acreditação de cursos e certificação profissional.

Comparações internacionais: um País acima da média — e sem bússola

A fotografia demográfica é eloquente. Enquanto 39 países da Federação de Veterinária da Europa (FVE) somam 52 cursos para 810 milhões de habitantes (média de 0,38 veterinários por mil), os EUA têm 33 cursos (0,36/1000) e o Canadá, 5 cursos (0,33/1000). O México registra 0,44/1000. O Brasil, por sua vez, atinge 0,77/1000 — a maior densidade do conjunto analisado. “O estudo mostra que o Brasil já tem uma densidade de médicos-veterinários por mil habitantes bem acima da média mundial. Sem planejamento, isso não se traduz em melhor assistência; ao contrário, pode gerar precarização e queda da qualidade”, alerta Maria Clorinda.

 Impactos sociais, econômicos e ambientais

Na vida real, a formação frágil não é só um problema acadêmico. É risco sistêmico: para a saúde pública (zoonoses, vigilância sanitária, resistência antimicrobiana), para a economia (qualidade dos serviços ao agronegócio e às cadeias de alimentos) e para o ambiente (bem-estar, produção sustentável, saúde única). Onde faltam hospitais-escola, fazendas-escola e laboratórios integrados ao currículo, a sociedade fica exposta.

 O plano do CFMV: governança, dados públicos e indução de qualidade

O estudo não fica na denúncia. A CNEMV apresentou uma agenda de dez projetos e ações contínuas para virar o jogo. “Nosso compromisso é oferecer caminhos: diretrizes para cursos, acreditação, certificação, painel de dados e um censo nacional. Com isso, queremos garantir que a sociedade brasileira possa confiar plenamente no médico-veterinário que a atende”, reforça Maria Clorinda.

 Transparência e comunicação: Portal da Educação

Para reduzir assimetrias de informação e empoderar escolhas, o CFMV propõe um Portal da Educação com dados atualizados dos cursos, resultados de avaliações (como o Enade) e documentos de referência, uma forma de “virar a luz” no Sistema CFMV/CRMVs e estimular a competição por qualidade. O pacto é institucional: diretoria do CFMV, diretorias dos CRMVs, comissões de educação e equipes técnicas integradas e com rotinas de trabalho perenes (inclusive fóruns e grupos de trabalho já em andamento).


O que observar a partir de agora?

Se o cronograma for cumprido, 2025/2026 serão anos de virada: painel de dados no ar, projetos-piloto de acreditação e certificação, revisão regulatória de estruturas-escola e um censo para orientar o planejamento de médio prazo. Trata-se de um arranjo que combina regulação, indução positiva e prestação de contas à sociedade — condição para que a formação veterinária responda ao seu papel estratégico na economia, na mesa do brasileiro e na saúde única.

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