O diabetes mellitus (DM) é uma doença endócrina comum em gatos, caracterizada por uma deficiência absoluta ou relativa de insulina. Isso resulta em uma diminuição da capacidade das células de absorver e utilizar glicose, aminoácidos, ácidos graxos e eletrólitos. A deficiência de insulina leva ao aumento da gliconeogênese, glicogenólise, lipólise, cetogênese e catabolismo proteico.
A avaliação dos sinais clínicos constitui o pilar fundamental do controle glicêmico em pacientes diabéticos. Parâmetros como as concentrações de glicose (sanguínea, intersticial e urinária) e proteínas glicadas (frutosamina) devem ser interpretados obrigatoriamente sob a perspectiva clínica. Além disso, o protocolo de monitoramento exige individualização para alinhar as necessidades biológicas do paciente às capacidades do seu responsável (SOUZA, et al. 2022).
O maior desafio no manejo de gatos com DM é evitar os sinais clínicos da doença e maiores complicações como a hipoglicemia e a cetoacidose (CAD). A monitorização rigorosa do paciente tem como objetivo manter os níveis glicêmicos abaixo do limiar renal, por volta de 270 mg/dl, com a redução das manifestações clínicas e prevenção do desenvolvimento da CAD (REUSCH, 2019). Esse controle é fundamental para nortear as tomadas de decisões terapêuticas. Os gatos têm uma maior probabilidade de atingir a remissão diabética quando a glicotoxicidade é minimizada (DEL BALDO et al., 2021).
As principais opções de monitorização do gato diabético incluem o controle da ingestão hídrica, a realização da curva glicêmica, a avaliação da glicosúria, a dosagem de frutosamina além do sistema de monitoramento de glicose contínuo e a mensuração da glicemia pontual e da hemoglobina glicosilada (DEL BALDO; FRACASSI, 2023)
O método padrão de monitoramento da DM em gatos é a elaboração de curvas glicêmicas com a coleta de múltiplas amostras de sangue durante um período definido, com a utilização de um glicosímetro portátil. Esses medidores oferecem uma série de benefícios em relação aos métodos laboratoriais. Graças à sua portabilidade, rapidez, baixo custo, fácil manuseio e resultados precisos, eles têm sido amplamente aplicados em diversos tipos de análises. A grande desvantagem é a necessidade de manipulação constante do gato para realizar a punção do capilar. Some-se a isso o treinamento requerido para que o responsável utilize o equipamento. Esses são os principais fatores que podem acarretar a não adesão ao monitoramento glicêmico do paciente. Nesse sentido, o Sistema Flash de Monitorização da Glicose FreeStyle® Libre 1 (SFMG), estabeleceu-se como uma alternativa à utilização de glicosímetros portáteis. Isto é feito por meio de um sensor redondo (35 mm x 9,5 mm), descartável, de uso único e calibrado de fábrica que possui um pequeno cateter (0,4 mm x 9,5 mm) inserido no tecido subcutâneo (SHOELSON; MAHONY; PAVLICK, 2020). O FreeStyle Libre® 2 (SFMG), assim como seu antecessor, mantém desafios semelhantes na faixa de hipoglicemia. Este possui um formato compacto, aplicação do sensor é simples, além de integração com o aplicativo do smartphone e tecnologia de calibração de fábrica que dispensa a necessidade de coleta diária de amostras de glicose no sangue. A principal diferença entre o Sistema Flash de Monitorização da Glicose FreeStyle® Libre 1 e 2 é a melhor conectividade para leituras via Bluetooth, o que permite ao Libre 2 enviar alertas opcionais para níveis altos e baixos de glicose. A discrepância observada durante as mudanças rápidas de glicemia pode ser atribuída ao lag time fisiológico entre os compartimentos intravascular e intersticial (BERG et al., 2023)
O mecanismo de aferição da glicemia utiliza a tecnologia de enzima com fio (mediador de ósmio e enzima glicose oxidase co-imobilizada em um sensor eletroquímico) para monitorar continuamente os níveis de glicose intersticial a cada minuto (FELDMAN et al., 2003). O sistema tem o período de inicialização de 1 hora, começando a funcionar somente após esse tempo e é resistente a água. A transmissão dos dados do sensor para o leitor ocorre através de radiofrequência NFC (Near Field Communication), com 13,56 MHz, sem que haja necessidade de manipulação do animal. No aparelho leitor ou aplicativo de celular, uma seta mostra a tendência de mudança da glicemia intersticial e um traçado gráfico dos valores de glicose para o período das 8 horas anteriores são exibidos na tela (HAAK et al., 2017).
O SFMG é particularmente útil para identificar a duração inadequada da ação da insulina (SURMAN, 2013). A acuracidade do aparelho é bastante satisfatória em períodos de hiperglicemia e euglicemia, o que corrobora para o seu uso (DEL BALDO 2021). O aparelho leitor do SFMG também é um glicosímetro, o que proporciona uma maior praticidade no manejo no gato diabético, caso seja necessário a verificação pontual da glicemia, principalmente quando há suspeita de hipoglicemia.
O SFMG disponibiliza um sistema de gerenciamento seguro através da plataforma digital LibreView, que permite o compartilhamento entre tutor e médico veterinário de relatórios completos com os dados da glicemia, da aplicação da insulina e da alimentação. Essa é mais uma ferramenta facilitadora para a monitorização contínua do gato diabético. O FreeStyle® LibreView é uma plataforma em nuvem que armazena as informações de glicose enviadas pelo aplicativo FreeStyle® LibreLink e oferece análises e relatórios completos que ajudam no tratamento da DM, CAD e tomadas de decisão.
REFERÊNCIAS BLIOGRÁFICAS
- BERG, A. S.; et al. Assessment of the FreeStyle Libre 2 interstitial glucose monitor in hypo‐and euglycemic cats. J Vet Intern Med, v. 37, n. 5, p. 1703-1709, 2023.
- DEL BALDO F.; et al. Accuracy of a flash glucose monitoring system in cats and determination of the time lag between blood glucose and interstitial glucose concentrations. J Vet Intern Med, v.35, n.3, p.1279–1287, p. 1–9, 2021.
- DEL BALDO, F.; FRACASSI, F. Continuous glucose monitoring in dogs and cats: application of new technology to an old problem. Vet Clin North Am Small Anim Pract, v. 53, n. 3, p. 591-613, 2023.
- FELDMAN, B.; et al. A continuous glucose sensor based on Wired Enzyme™ technology-Results from a 3-day trial in patients with type 1 diabetes. Diabetes technology & therapeutics, v. 5, n. 5, p. 769-779, 2003.
- REUSCH, C.; SOLOV, E. Feline endocrinology. In: FELDMAN, E.C.; FRACASSI, F.; PETERSON, M.E. Monitoring diabetes in cats. Milano: Edra SpA, 2019, p.522-541.
- HAAK T.; et al. Flash Glucose-Sensing Technology as a Replacement for Blood Glucose Monitoring for the Management of Insulin-Treated Type 2 Diabetes: a Multicenter, Open-Label Randomized Controlled Trial. Diabetes Ther, v. 8, n. 1, p. 55–73, 2017.
- HAFNER M.; LUTZ T.A.; REUSCH C.E.; ZINI E.; Evaluation of sensor sites for continuous glucose monitoring in cats with diabetes mellitus. J Feline Med Surg, v. 15, n. 2, p.117-23, 2013.
- REUSCH C.E.; KLEY S., CASELLA M.; Home monitoring of the diabetic cat. J Feline Med Surg, v. 8, n. 2, p. 119–127, 2006.
- SHOELSON A.M.; MAHONY O.M.; PAVLICK, M.; Complications associated with a flash glucose monitoring system in diabetic cats. J Feline Med Surg, v.23, n.6, p.557-562, 2021.
- SOUZA, H.J.M. et al. Perception of veterinarians on monitoring diabetic cats with emphasis on the flash glucose monitoring system. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v. 74, n. 4, p. 633-640, 2022.
- SURMAN S.; FLEEMAN L.; Continuous Glucose Monitoring in Small Animals. Vet Clin North Am Small Anim Pract, v. 43, n. 2, p. 381–406, 2013.