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Bioparque Pantanal: onde a água guarda ciência, vida e futuro

Um mergulho no coração da biodiversidade brasileira

A água corre silenciosa, moldando paisagens, culturas e histórias. No Brasil, ela também guarda um patrimônio biológico sem paralelo no planeta. Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, esse local ganha forma, método e propósito no Bioparque Pantanal, um espaço que ultrapassa o conceito de aquário para se firmar como centro de ciência, educação ambiental e conservação.

Reconhecido como o maior aquário de água doce do mundo, o Bioparque Pantanal não foi concebido apenas para impressionar pelos números ou pela grandiosidade arquitetônica. Sua missão é mais profunda: revelar ao público a complexidade dos ecossistemas aquáticos e o papel essencial da ciência na preservação da vida.

Essa atuação se consolida como referência nacional e internacional, mostrando que o aquarismo também é ciência, educação e conservação de biodiversidade. Aliando rigor técnico à sensibilidade narrativa, esta reportagem convida você a olhar além dos tanques e vidros. 

Aqui, a água e os peixes não são cenários: são protagonistas. 

Muito além da contemplação: aquarismo como ciência

No Bioparque Pantanal, o aquarismo é tratado como uma disciplina científica completa. Cada recinto é planejado a partir de estudos ambientais, dados de campo e conhecimento acumulado sobre os biomas brasileiros, especialmente o Pantanal e os grandes sistemas fluviais da América do Sul.

“O aquarismo vai além da exposição estética: é tratado como uma ciência que alia saúde animal, manejo responsável e proteção às espécies aquáticas, muitas delas ameaçadas de extinção. Cada ambiente é cuidadosamente planejado para reproduzir, com base em pesquisa e conhecimento técnico, os ecossistemas naturais de forma sustentável”, explica Maria Fernanda, diretora-geral do Bioparque Pantanal. 

Temperatura, pH, oxigenação, luminosidade, fluxo da água e composição biológica são monitorados de forma contínua. O objetivo é garantir ambientes sustentáveis, capazes de promover saúde, reprodução e longevidade às espécies, muitas delas ameaçadas de extinção.

Esse cuidado transforma o Bioparque em um verdadeiro polo de produção de conhecimento, onde ciência aplicada e conservação caminham juntas. 

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Equipe do Bioparque Pantanal Foto: Gislene Guerra
Equipe do Bioparque Pantanal Foto: Gislene Guerra

Quando o peixe é o paciente: o papel da Medicina Veterinária

Cuidar de mais de 450 espécies de peixes, além de répteis, anfíbios e mamíferos aquáticos, exige uma atuação médico-veterinária altamente especializada. No Bioparque Pantanal, a Medicina Veterinária de organismos aquáticos enfrenta desafios que extrapolam a clínica tradicional.

“Nosso principal desafio é adaptar os tratamentos ao ambiente aquático”, mantendo os animais fortes o suficiente para que seu próprio organismo consiga se defender dos agentes patogênicos presentes na água, explica o médico-veterinário Edson Pontes, responsável técnico do Bioparque”.  

Por isso, o foco está na prevenção. O desenvolvimento de protocolos próprios, desenvolvidos em parceria com os zootecnistas, reduzindo hospitalizações e promovendo o bem-estar geral.

No Bioparque, cada peixe é tratado como um paciente único. O acompanhamento individual permite identificar alterações comportamentais sutis, muitas vezes imperceptíveis ao visitante, mas fundamentais para intervenções precoces.

Equipe do Bioparque Pantanal Foto: Gislene Guerra
Equipe do Bioparque Pantanal Foto: Gislene Guerra
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equipe profissionais Bioparque
equipe profissionais Bioparque

Inovação que faz história: a primeira tomografia de uma cachara

A busca por inovações tecnológicas levou o Bioparque a protagonizar um feito inédito na Medicina Veterinária: a primeira tomografia computadorizada realizada em uma cachara (Pseudoplatystoma reticulatum), uma espécie de bagre.

O procedimento foi realizado em parceria com o Hospital Veterinário da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). O desafio era enorme: como submeter um peixe de grande porte a um exame de alta complexidade sem comprometer sua sobrevivência?

A resposta veio do conhecimento científico e da criatividade. A equipe desenvolveu um protótipo de recirculação de água, permitindo que o animal permanecesse fora do ambiente aquático por aproximadamente cinco minutos, tempo suficiente para a realização do exame e sem que a sua saúde fosse comprometida. 

“Nosso desafio foi adaptar um exame tão complexo como a tomografia para um organismo aquático, garantindo a integridade do peixe durante o procedimento”, explicou o médico-veterinário, Edson Pontes. 

“O peixe apresentava sintomas como emagrecimento, inapetência e alterações comportamentais”, relata Edson Pontes. “Com a tomografia, conseguimos um diagnóstico preciso e possibilitamos o tratamento adequado. Meses depois, ele voltou a se alimentar”.

O episódio reforça o papel do Bioparque como referência em inovação, pesquisa aplicada e saúde de organismos aquáticos.

Primeira tomografia de uma cachara Imagem: acervo Bioparque Pantanal
Primeira tomografia de uma cachara
Imagem: acervo Bioparque Pantanal

Zootecnia: nutrição como base do bem-estar animal

Se a Medicina Veterinária cuida da saúde, a zootecnia sustenta o equilíbrio diário da vida no Bioparque Pantanal. O núcleo da área é responsável pela nutrição e pelo manejo alimentar de diversas espécies, cada uma com suas necessidades específicas.

“Nosso maior objetivo não é o ganho de peso, mas sim a longevidade e a saúde dos animais.  Por isso, reproduzimos o que há na natureza, ajustando a dieta às necessidades de cada grupo”, explica o zootecnista Frederico Vasconcelos, responsável técnico do setor de nutrição do Bioparque Pantanal.

Carnívoros recebem dietas com mais gordura e proteína; herbívoros, maior teor de fibras; onívoros, dietas balanceadas. Tudo é ajustado de acordo com fase de vida, tamanho e comportamento alimentar.

O manejo alimentar é adaptado para diferentes fases e espécies. Durante o período de quarentena, por exemplo, os novos animais recebem treinamento para garantir que consigam competir pela ração nos recintos de exposição. Essa etapa também é uma oportunidade de identificar sinais de saúde e intervir quando necessário. 

Além da alimentação, o equilíbrio do ecossistema aquático é uma prioridade. A qualidade da água depende diretamente do manejo alimentar correto, já que má nutrição pode afetar não apenas a saúde dos peixes, mas também comprometer o ambiente em que vivem. “Um aquário não é piscicultura. É um ecossistema vivo que precisa de equilíbrio entre bactérias, algas e outros organismos. Nosso trabalho é garantir que os peixes tenham uma dieta adequada e um ambiente saudável para viver”, destaca o profissional. 

O trabalho em conjunto com médicos-veterinários e outros técnicos garante o sucesso das práticas de nutrição e manejo, refletindo diretamente no bem-estar e na longevidade dos animais do Bioparque Pantanal.

Rações sob medida: um diferencial exclusivo

Um dos grandes diferenciais do local é a produção própria de rações. Semanalmente, a equipe desenvolve e produz 3 tipos de rações personalizadas para garantir uma alimentação balanceada e adaptada às necessidades de mais de 450 espécies de peixes. 

“Embora utilizemos algumas rações comerciais de piscicultura e aquarismo, elas sozinhas não atendem todas as necessidades. Por isso, produzimos nossas próprias rações com fórmulas balanceadas, pensando no comportamento e nas características de cada espécie”, explica o zootecnista Frederico Vasconcelos.

São produzidos diferentes tipos de rações: específicas para carnívoros, herbívoros e onívoros. Até o formato do alimento é pensado para imitar o que encontrariam na natureza. 

A produção própria também é estratégica para atender aos desafios de variados plantéis, promovendo longevidade, escores corporais adequados e a manutenção da qualidade da água nos recintos, que faz parte do equilíbrio do ecossistema aquático. 

Curiosidade: Além de rações para peixes, os zootecnistas preparam dietas específicas para répteis, como jacarés e jabutis, e para mamíferos, equilibrando nutrientes e simulando também a alimentação que teriam em um habitat natural. 

Essa atenção e cuidado reflete diretamente na saúde, no escore corporal adequado e na longevidade dos animais, além de contribuir para a estabilidade ambiental dos recintos.

O Bioparque Pantanal produz rações balanceadas, adaptadas às necessidades nutricionais de cada espécie. Na foto, o zootecnista Frederico à esquerda e o médico-veterinário Edson, à direita.
O Bioparque Pantanal produz rações balanceadas, adaptadas às necessidades nutricionais de cada espécie.
Na foto, o zootecnista Frederico à esquerda e o médico-veterinário Edson, à direita.

Educação, ciência e conservação: um compromisso com o futuro

O Bioparque Pantanal é também um espaço educativo. Ao transformar ciência em experiência sensorial e conhecimento acessível, o local cumpre um papel estratégico na formação de consciência ambiental.

Médicos-veterinários, zootecnistas e biólogos atuam de forma integrada, mostrando ao público que a preservação da biodiversidade depende de profissionais qualificados, investimento contínuo e políticas públicas baseadas em ciência.

Mais do que um atrativo turístico, o Bioparque é um símbolo de responsabilidade ambiental. Cada tanque, cada animal e cada protocolo técnico contam uma história de cuidado, pesquisa e compromisso com a vida.

Ao final da visita, ou da leitura desta reportagem a mensagem é clara: preservar a biodiversidade brasileira exige conhecimento, dedicação e coragem para inovar. No Bioparque Pantanal, a água não apenas abriga peixes. Ela guarda ciência, memória e futuro.

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Apoio: 
Produção e impensa: Gisleine Irala Guerra, Assessora de Comunicação CRVM-MS
Captação de Imagens e Edição de Vídeos: Guilherme Anadara, criação CRMV-MS

Agradecimentos:
Bioparque Pantanal 
CRMV-MS

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