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Academia Brasileira de Zootecnia: quando a memória vira compromisso com o futuro

Uma conversa importante sobre identidade, ciência e o futuro da Zootecnia no Brasil.

Toda profissão que deseja permanecer precisa, antes, de se reconhecer. Para a Zootecnia brasileira, esse movimento ganhou forma, voz e propósito com a criação da Academia Brasileira de Zootecnia. Mais do que uma instituição, ela nasce como um gesto simbólico de preservação da memória e de responsabilidade com as próximas gerações.

A semente foi lançada em 2016, durante as celebrações dos 50 anos do primeiro curso superior de Zootecnia no Brasil. Segundo o zootecnista Severino Benone Paes Barbosa, diretor de Comunicação da Academia, o nascimento da AcBZ carrega um sentido que ultrapassa datas e atos formais. “O contexto de criação é fortemente simbólico e remete exatamente ao cinquentenário da Zootecnia como profissão independente, resgatando toda a história vivida ao longo desses anos e se propondo a ser um elo para as futuras gerações de zootecnistas”, afirma. 

A formalização institucional viria anos depois, em setembro de 2023, com a posse dos acadêmicos fundadores, em Brasília. Ali, a Academia deixou de ser projeto para se tornar presença. Hoje, conta com 26 cadeiras previstas, ocupadas inicialmente por 13 acadêmicos fundadores, nomes cuja trajetória se confunde com a própria construção da Zootecnia no país. Não se trata de um recorte por notoriedade pontual, mas de um reconhecimento histórico. “Não pensamos em um perfil específico, mas em profissionais que personificassem a própria história da Zootecnia no Brasil”, destaca Severino.

Essa opção revela uma das principais singularidades da Academia. Ela não nasce para competir ou substituir entidades científicas, acadêmicas ou representativas já existentes. Ao contrário. “A Academia é uma entidade com personalidade própria e referencial para os zootecnistas, sem a pretensão de se constituir como missão paralela a outras instituições”, explica. Seu papel é outro: guardar, refletir, provocar pensamento e oferecer referências éticas, científicas e filosóficas para a profissão.

A estrutura acadêmica, com cadeiras e patronos, reforça esse compromisso com a identidade. Muitos dos homenageados sequer eram zootecnistas de formação, mas abraçaram a Zootecnia como causa. “Eles dignificaram a Zootecnia como se zootecnistas fossem”, afirma Severino, ao destacar o caráter inclusivo e histórico das escolhas.

Em um cenário global marcado por debates intensos sobre sustentabilidade, bem-estar animal, novas tecnologias de produção e segurança alimentar, a Academia assume também uma função de ponte com a sociedade. Para Severino, a reflexão precisa partir de dados concretos, mas alcançar valores humanos. “A última coisa que o ser humano vai deixar de fazer é comer. E a primeira coisa que faz quando aumenta a renda é consumir mais proteína de origem animal”, observa. Nesse contexto, ele lembra que os novos paradigmas da produção animal já estão incorporados à formação zootecnista e ao próprio juramento profissional.

O olhar da Academia, porém, não se limita ao presente. Há uma preocupação clara com os rumos éticos e filosóficos da ciência. “Refletir sobre novos rumos e sobre o papel ético no uso e manejo dos recursos naturais, em vista do bem-estar animal e humano, talvez seja o maior desafio da Academia”, avalia Severino, ao mencionar também os impactos futuros da biotecnologia e da inteligência artificial sobre a relação entre ciência, sociedade e produção.

Ainda em fase inicial de consolidação, a Academia já aponta prioridades estratégicas. Entre elas, a ampliação do quadro de acadêmicos titulares e a implementação de projetos estruturantes, como um repositório bibliográfico específico da Zootecnia e a criação de um Observatório da Zootecnia. A proposta é clara: oferecer um espaço permanente de pensamento crítico, reflexão evolutiva e acesso qualificado ao conhecimento zootecnista.

Para Severino, o legado que se pretende construir não é apenas institucional, mas humano. “A Academia deve ser um espelho que reflita as coisas bem-feitas da Zootecnia, embasadas em conceitos sólidos, capazes de considerar as diferenças do pensamento humano em busca da melhor perspectiva de evolução da sociedade”, resume.

Ao reconhecer a importância desse movimento, a presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária, Ana Elisa Almeida, destaca o papel estratégico da Academia para o fortalecimento da profissão no Brasil:

“A Academia Brasileira de Zootecnia representa um compromisso com a memória, com a ética e com o futuro. Valorizar a história da Zootecnia é também fortalecer sua identidade, sua ciência e sua contribuição para a sociedade. Iniciativas como essa ajudam a formar profissionais mais conscientes do seu papel, mais conectados com os desafios contemporâneos e mais preparados para transformar conhecimento em valor público.”

Para conhecer, em profundidade, as reflexões, os bastidores e os projetos que dão forma à Academia Brasileira de Zootecnia, convidamos você a ler a entrevista completa com Severino Benone Paes Barbosa, diretor de Comunicação da Academia.

O conteúdo é exclusivo da Revista CFMV e amplia essa conversa essencial sobre identidade, ciência e o futuro da Zootecnia no Brasil.


posse zootecnia


ENTREVISTA – ACADEMIA BRASILEIRA DE ZOOTECNIA

Com – Severino Benone Paes Barbosa
Zootecnista e Diretor de Comunicação da Academia Brasileira de Zootecnia


1. Revista CFMV:
 Em que ano e contexto a Academia Brasileira de Zootecnia foi criada?

Severino Barbosa: O ato formal de criação da Academia Brasileira de Zootecnia (AcBZ) ocorreu no ano de 2016, pela Associação Brasileira de Zootecnistas (ABZ), em celebração dos 50 anos da criação do primeiro curso superior de Zootecnia no Brasil, por ocasião da realização do ZOOTEC 2016. Entretanto, somente em setembro de 2023, a AcBZ foi efetivada, por ocasião da posse dos Acadêmicos Fundadores, em Brasília-DF. O contexto de criação é fortemente simbólico e remete exatamente ao fato do cinquentenário da Zootecnia como profissão independente, resgatando toda história vivida ao longo desses anos e na proposta de ser um elo para as futuras gerações de zootecnistas.

2. Qual a atual composição da instituição?

Severino Barbosa: A composição da AcBZ é de 26 membros, sendo 13 Acadêmicos fundadores e 13 Acadêmicos Titulares. Os acadêmicos fundadores são:

Cadeira 1: Walter Motta Ferreira, Patrono Octavio Domingues de Oliveira;

Cadeira 2: José Paulo de Oliveira, Patrono José Francisco Sanchotene Felice;

Cadeira 3: Célia Regina Orlandelli Carrer, Patronesse Anna Maria Primavesi;

Cadeira 4: Severino Benone Paes Barbosa, Patrono Manoel Francisco de Moraes Cavalcanti;

Cadeira 5: Paulo Roberto Nogara Rorato, Patrono Luiz Alberto Fries;

Cadeira 6: Wilson Moreira Dutra Júnior, Patrono Wilson Pinent Vilella;

Cadeira 7: Antônio Gilberto Bertechini, Patrono Igor Maximiliano Vivacqua Von Tiesenhausen;

Cadeira 8: Iran Borges, Patrono Noel de Souza Sampaio;

Cadeira 9: Mateus José Rodrigues Paranhos da Costa, Patrono João Barrison Vilares;

Cadeira 10: Francisco Fernando Ramos de Carvalho, Patrono Walter Ramos Jardim;

Cadeira 11: Marcos Elias Traad da Silva, Patrono José de Alencar Carneiro Viana;

Cadeira 12: Pedro Adair Fagundes dos Santos, Patrono Ambires Cecílio Machado Riella;

Cadeira 13: Ézio Gomes da Mota, Patrono Edimar Mesquita de Oliveira.

Os primeiros acadêmicos titulares ainda não foram eleitos. O Edital para inscrição de novos acadêmicos já foi aprovado e deve ser lançado brevemente pela ABZ. A primeira Diretoria da AcBZ ficou assim constituída: Walter Motta Ferreira (Presidente), Célia Regina Orlandelli Carrer (Vice-Presidente), Iran Borges (Secretário) e Severino Benone Paes Barbosa (Diretor de Comunicação). 

3. O que motivou a criação da Academia Brasileira de Zootecnia e que papel ela vem cumprir no cenário da Zootecnia brasileira?

Novamente, nos remetemos ao cinquentenário de ensino da Zootecnia e estávamos precisando de uma fonte que pudesse ser uma espécie de repositório vivo, histórico e que fomentasse as bases e motivação na formação dos futuros zootecnistas. Estes preceitos pavimentam as referências contemporâneas dos Zootecnistas brasileiros e serve ao propósito de divulgar o pensamento e as bases que fundamentam a Zootecnia brasileira como ciência e profissão.

4. Em que a Academia Brasileira de Zootecnia se diferencia de outras instituições científicas ou entidades do setor?

A AcBZ é uma entidade com personalidade própria e referencial para os Zootecnistas, não tendo a pretensão de substituir ou se constituir com missão paralela a outras entidades ou instituições de âmbito científico, acadêmico ou cultural relacionadas à Zootecnia. Não foi criada se pensando em um perfil específico na indicação dos acadêmicos, mas em nomes que representassem todo o conjunto da formação zootecnista e em profissionais que personificassem a própria história da Zootecnia no Brasil. Entre os acadêmicos fundadores se encontra o Zootecnista que foi o primeiro inscrito no País, formado na Pontifícia Universidade Católica, em Uruguaiana-RS, onde foi criado o primeiro curso de Zootecnia do Brasil, alguns que se destacaram nas lutas históricas por avanços profissionais e científicos, entre outros que se tornaram símbolos ou destaques em suas áreas de atuação.

5. Na sua avaliação, quais marcos históricos da Zootecnia brasileira ainda precisam ser mais conhecidos, registrados ou valorizados?

Eu penso que alguns marcos foram muito significativos e devem ser sempre lembrados, particularmente pelos zootecnistas e, em geral, pela sociedade brasileira: a data de criação do primeiro curso de Zootecnia no Brasil, 13 de maio de 1966 e, a partir dessa data, 13 de maio, quando foi instituído e formalmente reconhecido pelo governo federal, por meio da Lei nº 13.596, sancionada em 08/01/2018, o Dia Nacional do Zootecnista; a criação da Associação Brasileira de Zootecnistas, em 24/09/1988; a criação do ZOOTEC, em maio/1997, que reúne o Congresso Brasileiro e/ou Internacional de Zootecnia, Reunião Nacional de Ensino de Zootecnia e Fórum Nacional de Entidades de Zootecnistas; a aprovação das Diretrizes Curriculares dos Cursos de Graduação em Zootecnia, em 29 de dezembro de 2004, contemplando a proposta encaminhada pela comunidade acadêmica, sob os auspícios da ABZ e de seus filiados.

6. A criação das cadeiras acadêmicas e a escolha de patronos têm um simbolismo importante. Como essa estrutura contribui para fortalecer a identidade da Zootecnia no Brasil?

A formação dos primeiros zootecnistas brasileiros evidentemente teve por base e principalmente a participação de professores agrônomos e veterinários, consequentemente esses profissionais tinham que ser referenciados, embora três zootecnistas e um economista tenham sido também homenageados. Os treze patronos indistintamente da formação profissional, indicados por cada um dos Acadêmicos Fundadores, foram expoentes na luta pela zootecnia e abraçaram e dignificaram a Zootecnia, particularmente os não zootecnistas, como se zootecnistas fossem.

7. Como a Academia pode contribuir para aproximar a Zootecnia da sociedade, especialmente em temas como sustentabilidade, bem-estar animal e segurança alimentar?

Embora haja mundialmente uma propaganda de forte impacto contra alimentos de origem animal, os números são inquestionáveis quanto o crescimento constante no consumo da proteína animal, principalmente nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, impulsionados pelos aumentos populacional e de renda. Com isso, os novos paradigmas da produção animal, sustentabilidade, bem-estar e segurança alimentar, já estão há tempo alinhados na formação do zootecnista, sendo incluídos no juramento profissional. A AcBZ tem como finalidade promover e apoiar o aperfeiçoamento dos profissionais, visando preferencialmente sobre temas contemporâneos da Zootecnia no País.

8. Qual é o papel da Academia no estímulo à reflexão ética, científica e filosófica sobre os rumos da Zootecnia?

A Zootecnia não é uma ciência tão recente como muitos equivocadamente imaginam. Em meados do século XIX os estudos de adaptação econômica do animal ao meio e do meio ao animal absorveram rapidamente outros saberes que na mesma ocasião floresceram como, por exemplo, genética, bioclimatologia, nutrição e metabolismo, economia de escalas e etc., que deram sustentação às bases da Zootecnia moderna. Refletir sobre novos rumos e o papel ético no uso e manejo dos recursos naturais em vista do bem-estar animal e humano seja talvez o maior desafio da Academia, o que não deixa de ser uma reflexão para toda sociedade. Avançar no pensamento crítico e na concepção de sistemas cada vez mais humanizados e sustentáveis pode ser um papel que a academia apoie em desenvolver. Como prever e moldar uma reflexão em três coisas que ainda não conhecemos o direcionamento de uma correlação, a partir dos avanços biotecnológicos e da inteligência artificial, que são imensuráveis? A confluência desses três componentes, ético, científico e filosófico, irá determinar a influência no comportamento humano, em todas as áreas. Temos muito que aprender sobre essa relação e a AcBZ, na sua concepção, tem responsabilidades sobre esses temas.

9. Quais são as prioridades e projetos da Academia neste momento e para os próximos anos?

Uma necessidade urgente da AcBZ é a definição dos 13 Acadêmicos Titulares. Essa ampliação dos componentes da academia vai possibilitar melhores discussões e, possivelmente na concepção de melhores propostas e projetos em conexão com a formação profissional e com a sociedade. Nesse momento, dois projetos foram aprovados e priorizados e esperamos que sejam brevemente consolidados: o primeiro é o estabelecimento de um repositório bibliográfico credenciado pela AcBZ que permita o acesso qualificado a estudos, reflexões, dissertações, teses, artigos, livros, apostilas, entre outros textos que possam servir de consulta livre aos interessados em ampliar o conhecimento na Zootecnia. Existem vários repositórios bibliográficos, mas o diferencial que a academia pretende proporcionar é a reunião em uma base de consulta que seja específica da Zootecnia e que possa contar com a construção coletiva deste acervo. O segundo projeto refere-se à criação de um Observatório da Zootecnia que possa servir de espaço de opinião, pensamento crítico e evolutivo da Zootecnia brasileira e mundial. Provavelmente, com edição mensal ou quinzenal anexa à página da academia.

11. Que legado o senhor espera que a Academia Brasileira de Zootecnia deixe para as futuras gerações de zootecnistas?

Identidade e referência ética, acadêmica, científica, transparência e honestidade nos preceitos que fundamentam as lutas de âmbito profissional e intelectual para os Zootecnistas brasileiros. A academia deve ser um espelho que reflita as coisas bem-feitas da Zootecnia, devidamente embasadas em conceitos sólidos que permitam considerar as diferenças no pensamento humano em vista de alcançar a melhor perspectiva da evolução da Sociedade.

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