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Saúde Única – Biodiversidade e surgimento de novas doenças

Vivemos em um momento histórico no qual a saúde humana, animal e ambiental revela-se profundamente entrelaçada.

Vivemos em um momento histórico no qual a saúde humana, animal e ambiental revela-se profundamente entrelaçada. A intensificação das transformações ambientais, associada à pressão crescente sobre os ecossistemas, evidencia de forma incontestável que o surgimento de novas doenças não ocorre ao acaso: ele é consequência direta das escolhas que fazemos enquanto sociedade. Nesse cenário, o conceito de Saúde Única ou Uma Só Saúde (One Health) ganha relevância não apenas como abordagem científica, mas como eixo estruturante de políticas públicas, gestão ambiental e práticas sociais que visem preservar tanto a saúde planetária quanto a humana. 

O conceito moderno de Saúde Única, conforme ressaltado por Pettan-Brewer et al. (2024), consolidou-se em duas etapas principais: primeiro, sua introdução nos círculos acadêmicos, onde passou a fundamentar debates científicos e orientar políticas intersetoriais; segundo, a expansão do termo como movimento global e elemento da cultura popular, fortalecendo sua presença na agenda pública e ampliando sua adoção em diversas esferas governamentais e sociais. Essa evolução demonstra que a Saúde Única deixou de ser apenas um conceito teórico para se tornar um imperativo diante da emergência de novos riscos sanitários.  

As doenças transmissíveis que afetam humanos e animais, as chamadas zoonoses, não são fenômenos novos. Desde 1959, a Organização Mundial da Saúde definiu-as como enfermidades transmitidas naturalmente entre animais e seres humanos (Vargas; Galindo, 2013). No entanto, a frequência, a gravidade e a velocidade de disseminação dessas doenças aumentaram significativamente nas últimas décadas. O motivo? Um planeta em transformação acelerada.  

A expansão populacional, a urbanização desordenada, as mudanças climáticas, o desmatamento e a perda de biodiversidade estão entre os principais motores do surgimento de novas doenças. Esses fatores aproximam humanos e animais silvestres, facilitam o salto de patógenos entre espécies e criam ambientes propícios para a emergência de agentes infecciosos. A pandemia de COVID-19 é o caso mais emblemático: uma crise global cuja provável origem animal já era prevista há anos pela comunidade científica e pelas organizações internacionais de saúde. 

No Brasil, país megadiverso e de dimensões continentais, o risco é ainda mais evidente. Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica são considerados “hotspots” globais para o surgimento de novas doenças, devido à extraordinária biodiversidade e às intensas pressões antrópicas que sofrem. O país possui desafios sanitários complexos: doenças negligenciadas, surtos emergentes e um setor agropecuário gigantesco, com dois bilhões de animais de produção, cuja sanidade é estratégica para a economia nacional. A perda de habitats naturais, impulsionada pela expansão agrícola e pela urbanização, aumenta a probabilidade de encontros entre humanos, animais domésticos e fauna silvestre, criando oportunidades para novos patógenos se estabelecerem. 

Nesse contexto, a abordagem de Saúde Única se mostra não apenas adequada, mas necessária. Trata-se de um modelo que reconhece a interdependência entre humanos, animais e ecossistemas, defendendo ações coordenadas, colaborativas e multissetoriais. Como afirmam Mascarenhas et al. (2025), ampliar a troca de saberes entre as áreas de saúde humana, saúde animal e meio ambiente é essencial para compreender e mitigar riscos emergentes. Em outras palavras, saúde pública e conservação ambiental não podem mais caminhar separadamente.  

As tecnologias também desempenham papel estratégico nessa integração. O desenvolvimento de ferramentas de geoprocessamento permitiu mapear doenças, identificar áreas de risco e analisar contextos socioeconômicos, ambientais e demográficos associados ao surgimento de enfermidades (Barcellos; Ramalho, 2002; Mascarenhas et al., 2012). Esses instrumentos tornam possível uma vigilância epidemiológica mais eficaz, orientando ações preventivas e estratégias de resposta rápida.  

Além disso, iniciativas internacionais reforçam o papel da Saúde Única na construção de políticas públicas sustentáveis. A Organização Mundial de Saúde Animal (antiga OIE) criou o programa GBADs para avaliar o impacto global das doenças em animais, contribuindo para uma transformação digital mais ampla desse campo (OIE, 2021). No Brasil, o Decreto Presidencial nº 12.007/2024 instituiu o Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde, responsável pela elaboração do Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde (PAN-Uma Só Saúde). Trata-se de um marco institucional que reconhece oficialmente a conexão entre saúde humana, animal, vegetal e ambiental, promovendo ações conjuntas e coordenadas.  

Diante desse panorama, torna-se evidente que o surgimento de novas doenças está profundamente relacionado ao modo como nos relacionamos com o planeta. A perda de biodiversidade é não apenas uma tragédia ecológica, mas também um fator determinante na emergência de novas ameaças sanitárias. Ecossistemas equilibrados, com alta diversidade biológica, tendem a diluir patógenos e reduzir transmissões; ecossistemas degradados, ao contrário, amplificam riscos. Cada espécie retirada de um ambiente é uma peça que se perde no complexo quebra-cabeça da saúde global. 

Portanto, discutir Saúde Única é discutir o nosso próprio futuro. É reconhecer que não existe saúde humana possível em um planeta doente. É admitir que a prevenção de pandemias depende tanto de vacinas e laboratórios quanto de florestas preservadas, sistemas alimentares sustentáveis e políticas ambientais robustas. É compreender que ciência, sociedade e meio ambiente precisam dialogar de forma integrada e contínua. 

Mais do que uma abordagem técnica, a Saúde Única deve ser encarada como um compromisso ético. Uma visão de mundo que reconhece a interdependência entre todas as formas de vida e que responsabiliza o ser humano pelo equilíbrio — ou desequilíbrio — que produz. Em tempos de mudanças aceleradas, esse compromisso torna-se urgente. Afinal, proteger a biodiversidade é proteger a nós mesmos. E adotar a Saúde Única como eixo estratégico é assegurar que as futuras gerações encontrem um planeta capaz de sustentar a vida em toda a sua complexidade e riqueza.

  • Referência:

BARCELLOS, C.; RAMALHO, W. Situação Atual do Geoprocessamento e da Análise de Dados Espaciais em Saúde no Brasil. Revista de Informática Pública, v. 4, n. 2, 2002. 

MASCARENHAS, Maria Tereza Vargas Leal et al. ANÁLISE ESPACIAL DOS DADOS DO PROGRAMA DE PROFILAXIA DA RAIVA NO MUNICÍPIO DE LAURO DE FREITAS, BAHIA, BRASIL, NO PERÍODO DE 1999-2004. Revista Baiana de Saúde Pública, v. 36, n. 1, p. 207, 25 ago. 2012. 

MASCARENHAS, Maria Tereza Vargas Leal et al. Avaliação soroepidemiológica da linfadenite caseosa, doença de risco zoonótico, em regiões de grandes produções de ovinos na Bahia, Brasil. Caderno Pedagógico, v. 22, n. 12, p. 1–19, 22 out. 2025. 

OIE. Boletin Panorama – Cuaderno temático. Organizacion Mundial de Sanidad Animal, p. 1–63, 2021. 

PETTAN-BREWER, Christina et al. Who coined the term “One Health”? Cooperation amid the siloization. One Health, v. 18, 1 jun. 2024. 

VARGAS, Raúl; GALINDO, Marion. Aspectos Epidemiológicos De Las Zoonosis. Departamento de Medicina Preventiva y Salud Pública. FMVZ/UNAM., 2013. 

 

Maria Tereza Vargas Leal Mascarenhas

CRMV-BA nº 1678 Médica Veterinária Com especialização em Vigilância Epidemiológica e Sanitária pela UNAERP. Mestre em Ciência Animal nos Trópicos, UFBA. Doutoranda em Biotecnologia, UFBA. Atua como Fiscal Agropecuária da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB). É presidente da Comissão Nacional de Uma Só Saúde do CFMV.
Maria-Tereza

Maria Tereza Vargas Leal Mascarenhas

CRMV-BA nº 1678

Médica-Veterinária
Com especialização em Vigilância Epidemiológica e Sanitária pela UNAERP. Mestre em Ciência Animal nos Trópicos, UFBA. Doutoranda em Biotecnologia, UFBA. Atua como Fiscal Agropecuária da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB). É presidente da Comissão Nacional de Uma Só Saúde do CFMV.

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